No dia 28 de Julho, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa, recebeu algumas dezenas de pessoas que não quiseram perder a oportunidade de conhecer o Padre Feliz, dos Missionários Combonianos, em Portugal depois de mais uma temporada na região de Nyala, no Darfur. A visita do Missionário deu o mote para a Plataforma por Darfur, da qual a Amnistia Internacional Portugal faz parte, promover uma mesa redonda que visa alertar para o problema humanitário que se continua a viver nesta região sudanesa.No início da sessão, o Padre Leonel, também dos Missionários Combonianos, apresentou o orador principal, que soma já quase 20 anos de vivência no Sudão. Desde 2006 que o Padre Feliz se encontra na região do Nyala, na parte sul do Darfur, uma das zonas mais pobres do país (e do mundo). A poucos quilómetros fica um dos maiores campos de refugiados da região, conhecido por Kalma, onde estão entre 90 a 100 mil deslocados internos. Foi sobre tudo o que viveu e experienciou até hoje no Darfur que o Padre Feliz veio falar, sem receios ou tabus.O Darfur de hoje
Para que todos os presentes ficassem desde logo a par da realidade no Darfur, a mesa redonda contou com a presença do jornalista Paulo Moura, que esteve na região em 2004 e conseguiu, em poucas palavras, sumarizar tudo o que testemunhou. Primeiro, as violações, quando as mulheres saem dos campos de deslocados para apanhar lenha ou quando estão sem qualquer forma de protecção. O problema, explica o Padre Feliz, é que “ser violada é uma desonra” no Sudão, passando estas mulheres a serem desprezadas pelos seus familiares. Por vergonha, também não vão ao médico, o que muitas vezes resulta em morte.Para além destas, há muitas outras pessoas que morrem diariamente em resultado do conflito entre as milícias Janjaweed, o Governo e os rebeldes, acrescentou Paulo Moura. Muitos, refere o Padre Feliz, ficam por sepultar, o que para além de ser um risco para a saúde pública, é moralmente dramático, pois, tal como os católicos, os sudaneses têm rituais de sepultura essenciais à paz interior.
A somar a tudo isto, continua o jornalista, há no Darfur epidemias e centenas de feridos que, por falta de médicos, acabam por engrossar o número de mortos. Diária é também a insegurança, conclui Paulo Moura, explicando assim o que viu em 2004.Desde então, entrou no Sudão uma força de manutenção da paz da Organização das Nações Unidas (ONU) e da União Africana, denominada UNAMID, mas o Padre Feliz garante que ao ouvir o jornalista achou que se referia aos dias de hoje. No Darfur pouco mudou, continua, apontando duas alterações apenas. Primeiro, “as milícias Janjaweed actuam hoje de forma diferente, pois antigamente passeavam-se de camelo, armados. Hoje puseram um uniforme e não têm uma unidade”, diz, contando como um dia deu boleia a um elemento da milícia pensando que era um soldado comum.A segunda grande diferença, indica o Padre Feliz, é que “há hoje três grupos de rebeldes, subdivididos em mais de 20 ou 30 subgrupos. Era gente de Darfur, que estava unida pelo seu povo. Agora estão divididos”. É por isso que, conta, os conflitos surgem hoje sem aviso prévio e em qualquer lugar. “Os vários grupos quando se encontram começam rixas que se transformam em verdadeiras guerras. E elas surgem sem sabermos como. Não é possível prever”, diz. É por isso que afirma, em jeito de conclusão: “a palavra hoje no Darfur é anarquia”.As razões do conflito Para o Padre Feliz, “a única forma de acabar com o conflito no Darfur é desarmando, porque há gente que não devia estar armada”. E o Missionário não hesita em apontar o dedo à China, enquanto principal fornecedor de armas para o Sudão, ajudando a incendiar o conflito. Pedro Matos, que está com uma força da ONU no terreno desde o início do ano, aproveitou para sair do seu lugar na plateia e explicar com maior detalhe a origem da guerra, que remonta a 2003 mas têm raízes ancestrais, uma vez que, como diz o Padre Feliz: “O Sudão está mal desenhado, como tantos outros países de África. Foi feito a régua e esquadro”. Na divisão, dois povos ficaram a partilhar um mesmo território: os de origem árabe, mais a Norte, e os de origem africana, mais a Sul e, mais concretamente, no Darfur.Estes últimos sentiram-se sempre discriminados face aos árabes, mas existia uma convivência pacífica, diz Pedro Matos. Quando as secas levaram os árabes a procurar alimento (ou o petróleo que hoje se sabe existir) nas terras do Darfur, começou uma rebelião africana que chegou à capital, Cartum, onde está o Governo ditatorial e de origem árabe (vigente desde os anos 50). Omar al-Bashir, presidente do país, controlou a multidão perseguindo os rebeldes e toda a etnia de que eram originários. Fechou então o Darfur ao exterior e entre Abril e Setembro de 2003 promoveu uma verdadeira limpeza étnica, dando armas aos árabes para que atacassem as aldeias africanas e eliminassem esta população.A proliferação das armas fez com que o conflito evoluísse de tal forma que foge hoje ao controlo do próprio al-Bashir, defende Pedro Matos, apontando os rebeldes que tinham já sido mencionados pelo Padre Feliz. Este continua: “hoje já não há aldeias para queimar, porque já estão queimadas ou destruídas”. Apesar disso, os deslocados continuam a ser incentivados a voltarem às suas terras, “pois há mais paz, mas não há nada a que estas pessoas se possam apegar. Quase não há escolas e não há desenvolvimento”, afirma. Factos que colocam o Sudão nos lugares mais baixos do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano.Uma realidade que se vive ainda hoje no Darfur e que a Plataforma por Darfur começou a combater em 2007, com a criação do projecto “Uma Escola para Nyala”. Com a venda do CD de música “Frágil-Artistas Portugueses por Darfur” e de contributos individuais, foi possível reunir um forte contributo para criação daquela que é actualmente a melhor instituição de ensino da região, onde estudam cerca de 900 alunos. É através da educação que se vai tentar mudar o futuro da região e das sete milhões de pessoas afectadas pelo conflito.Mais Informações:A Plataforma por DarfurEm Agosto de 2007 várias organizações da sociedade civil, entre elas a Amnistia Internacional Portugal e os Missionários Combonianos, uniram-se para criar a denominada Plataforma por Darfur. O objectivo é sensibilizar os portugueses para o drama humanitário que ainda se vive no Sudão e hoje, para além das organizações mencionadas, fazem também parte desta associação a Antena Fé Justiça Europa-África, a Comissão de Justiça e Paz dos Institutos Religiosos ou Mãos Unidas Padre Damião, a Fundação AIS e a Fundação Gonçalo da Silveira. Saiba mais no site oficial da
Plataforma por Darfur.
Não se esqueça as milhões de pessoas que continuam a tentar sobreviver naquele que é hoje o maior drama humanitário do mundo. Para ajudar, deixamos o videoclip da música Living Darfur, dos ingleses Mattafix.
Letra da música Living DarfurSee the nation through the people's eyes,
See tears that flow like rivers from the skies.Where it seems there are only borderlinesWhere others turn and sigh,You shall rise (x2)
There's disaster in your pastBoundaries in your pathWhat do you desire when lift you higher?You don't have to be extraordinary, just forgiving
Those who never heard your cries,You shall rise (x2)And look toward the skies.Where others fail, you prevail in time.
You shall rise.
(You may never know,If you lay low, lay low) (x4)You shall rise (x3)
Sooner or later we must try... Living(You may never know,If you lay low, lay low) (x4)
See the nation through the people's eyes,See tears that flow like rivers from the skies.Where it seems there a